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Por uma vida melhor, bancários exigem 'menos metas e mais saúde'
01/09/2010

As doenças físicas e psíquicas vêm crescendo de forma assustadora na categoria bancária. Atualmente, a cada mês 1.200 bancários em média são afastados por auxílio-doença concedido pelo INSS, dos quais a metade por transtornos mentais e por LER/DORT. 

Já está comprovado pelos estudos mais recentes que os transtornos mentais são doenças geradas ou agravadas pelo atual modelo organizacional das empresas, particularmente nos bancos, onde impera a pressão brutal por cumprimento de metas excessivas e em decorrência disso o assédio moral. 

Ao contrário do que dizem os banqueiros, o assédio moral não é uma prática isolada, fruto do arbítrio de um ou outro gestor. É uma questão que está relacionada à organização do trabalho, à lógica como funciona a produção hoje dentro dos bancos, pela maneira como as metas são estipuladas de forma abusiva e cobradas. Isso precisa ser alterado para que haja uma redução drástica no quadro de adoecimentos.

Especialista em psicologia do trabalho e mestre em administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em medicina preventiva pela Universidade de São Paulo (USP), a psicóloga Lis Andréa Soboll identifica duas categorias de assédio moral nas empresas: 

1. O assédio moral interpessoal, um "conjunto articulado de armadilhas" direcionado a uma ou mais pessoas "com o propósito de prejudicar e pressionar ao ponto de tornar insuportável a presença no ambiente de trabalho".

2. O assédio moral organizacional, decorrente de abuso de poder associado a estratégias de gestão equivocadas, que a psicóloga classifica em três tipos: gestão por injúria (que ofende a dignidade pessoal, a honra e até a imagem do trabalhador), gestão por estresse (cobranças constantes, supervisão exagerada, comparações de desempenho, ranking de produtividade, metas abusivas e prazos impossíveis de serem cumpridos) e gestão por medo (ameaça, explícita ou implícita, como estímulo principal para gerar "envolvimento" no trabalho).

Segundo Lis Andréa Soboll, os efeitos das duas categorias de assédio moral (o interpessoal e o organizacional) sobre a saúde física e mental dos trabalhadores são semelhantes. E ocorrem porque são estimuladas pelos modelos de gestão dos bancos.

Por isso a prática do assédio moral se dissemina em grande velocidade na categoria bancária. Pesquisa realizada pela Contraf-CUT em 2006, coordenada pelo Sindicato de Pernambuco e pela psicóloga Regina Heloísa Maciel, revelou que 8% dos trabalhadores do sistema financeiro estavam sofrendo assédio moral naquele momento.

Outra pesquisa encomendada pela Contraf-CUT em maio de 2010 mostra que 80% dos bancários consideram o assédio moral e as metas abusivas os principais problemas que enfrentam hoje nos locais de trabalho. 

Por essas razões a 12ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada no Rio de Janeiro entre 23 e 25 de julho, incluiu os dois temas como centrais na pauta de reivindicações da Campanha 2010 - e que já estão sendo abordados nas primeiras rodadas de negociação com a Fenaban. 

Também foi devido à crescente gravidade dessas questões para os bancários que a Contraf-CUT lançou, a partir de uma proposta desenvolvida pelo Sindicato de São Paulo, a campanha nacional Menos Metas Mais Saúde. O lançamento foi feito em um seminário na sede da Confederação, em São Paulo, que contou com a participação da médica do trabalho Margarida Barreto e do doutor em psicologia social Roberto Heloani - dois dos principais pesquisadores dos efeitos dos novos modos de produção sobre a saúde dos trabalhadores.

"Assédio moral, violência organizacional e metas abusivas" também é o tema da primeira publicação da coleção Cadernos Contraf-CUT, lançada no seminário, realizado no dia 18 de agosto.

Nossa avaliação é que esse assunto se tornou hoje tão importante e urgente para os trabalhadores quanto a questão da remuneração. Dois lados de uma mesma moeda, o assédio moral e as metas abusivas estão adoecendo e trazendo sofrimento à categoria bancária em uma escala jamais vista. As entidades sindicais precisam estar mais atentas e se preparar para esse combate.

Plínio Pavão, secretário de Saúde do Trabalhador da Contraf-CUT

Carlos Cordeiro, presidente da Contraf-CUT e coordenador do Comando Nacional dos Bancários

 

 

Fonte: Contraf-CUT – 31/08/2010