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Violência no Trabalho: as sutilezas da perversidade
26/04/2010

“Muita coisa mudou do ponto de vista teórico e prático dentro das organizações”. A afirmação do economista José Henrique de Faria, PhD em Relações de Trabalho pela Universidade de Michigan (EUA), introduziu uma profunda análise sobre a estrutura da violência nos locais de trabalho. José Henrique foi o convidado especial do Diálogos para Ação nesta sexta-feira, na Casa dos Bancários. 

O professor relata que começou a estudar o tema autoritarismo no trabalho no fim da década de 70. Numa época em que os trabalhadores eram vítimas de todo o tipo de violência e ameaça. “A nossa prática precisa ser teorizada. Não existe nenhuma prática transformadora sem uma teoria transformadora. Temos que elaborar sobre a prática criticamente para fundamentar nossas ações. É preciso retirar os problemas do trabalho da nossa visão e reflexão individual. São problemas coletivos. Não posso achar que o problema acontece só comigo. Trata-se de um processo institucional, que está na instituição do capital”. 

O economista salienta que para construir o coletivo cada um precisa ter uma atitude individual. “Devemos denunciar e trazer para o plano coletivo tudo aquilo que é problema individual. O temor de ficar desprotegido é que nos faz calar muitas vezes”, observa. 

Sistema de metas 

Segundo o professor, as empresas tendem a mascarar o que realmente são na prática, usando um discurso que ameniza os seus meios de atingir os objetivos de produção. 
“Normalmente as empresas dizem que as metas são desafios para melhorar a produção. Através deste discurso escondem que elas constituem a pressão para aumentar a produção. Usar o discurso para disfarçar a realidade acontece em todo o lugar e é isto que as organizações também fazem”. 

O painelista lembra que no início do século passado toda a violência no trabalho se caracterizava pelo controle físico: tempo, movimento e postura. Ele explica que depois a violência passou para o controle político, pelas regras, mas hoje o controle tornou-se psicossocial. Segundo ele, as organizações têm incorporado teorias que estudam o trabalho como a sociologia, psicologia e antropologia para aprimorar seus meios de controle e gestão. 

“É na gestão de recursos humanos que reside o foco de nossas angústias”, afirma. 

Formas usuais de violência no trabalho 

Ao longo de sua explanação, o professor detalhou as formas usuais de violência no trabalho: pressão para atingir metas; definição de metas inatingíveis; excesso de trabalho; longas jornadas; gestão autoritária; assédio moral e sexual; discriminação e preconceito; ameaças de demissão; exposição a danos físicos e psicológicos; desrespeito às leis trabalhistas; não observância das normas de saúde e segurança no trabalho. 

“As empresas querem 100% do trabalhador, mas não fazem isto sem sequestrar a sua subjetividade”. O painelista relatou casos em que as empresas criam programas específicos para envolver os trabalhadores em tempo integral. “O trabalhador passa a viver em função do trabalho e se considerar parte da empresa. O que está faltando é começarmos a fazer análises mais históricas, porque no cotidiano não conseguimos perceber de que maneira as coisas evoluíram. Não podemos falar da violência abstrata, mas da violência material”. 

O economista destaca que as empresas ignoram os sintomas e não tomam nenhuma atitude no sentido de resguardar a saúde do trabalhador enquanto ele estiver produzindo de maneira satisfatória. “Se nós quisermos entender a violência no trabalho e fazer uma intervenção política, primeiro precisamos nos apropriar da realidade ou não teremos resultados efetivos”. 
 

Sobre o painelista 

 

José Henrique de Faria é economista, especialista em Política Científica e Tecnológica, mestre em administração, doutor em Administração e PhD em Relações de Trabalho pela Universidade de Michigan (EUA). Atualmente, é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Federal do Paraná.

 

 

Fonte: Marisane Pereira - Mtb/RS9519 - Imprensa Fetrafi-RS - 23/04/2010