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Banrisul só cobrou vendedor da mansão a Yeda após escândalo do Detran
21/08/2008

O Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul) só moveu ação de cobrança de dívida contra Eduardo Laranja da Fonseca, que vendeu uma casa à governadora Yeda Crusius (PSDB), depois que a compra do imóvel se tornou o foco da crise política gaúcha.

Laranja é peça-chave na apuração que os oposicionistas PT e PSOL pediram ao Tribunal de Contas do Estado sobre o suposto enriquecimento ilícito da governadora. Yeda declarou ter comprado a casa por R$ 750 mil em dezembro de 2006 —valor superior ao da declaração de bens que apresentou antes da campanha (R$ 674 mil).

Entre novembro de 2003 e 2004, a Self Engenharia e Empreendimentos Imobiliários Ltda., que tem Laranja como principal sócio, obteve dois empréstimos no Banrisul —no valor total de R$ 3,7 milhões— para construir condomínios residenciais em Porto Alegre.

Apenas parte das prestações foi paga. A Folha apurou que, em 23 janeiro deste ano, o Banrisul incluiu a dívida restante (R$ 2,2 milhões) na chamada conta de créditos em liquidação —etapa que antecede a fase da cobrança judicial.

O banco estadual, entretanto, levou quase cinco meses para ingressar com as ações de cobrança. Isso foi feito em 6 de junho —quase 40 dias depois que a transação imobiliária entre Yeda e Laranja foi questionada na CPI e auge da crise política provocada pelo desvio de R$ 44 milhões no Detran.

A fraude foi revelada pela Operação Rodin, da Polícia Federal, realizada em novembro do ano passado e que detonou a crise no governo gaúcho.

“A nossa suspeita é que o senhor Laranja possa ter sido beneficiado numa estatal a partir das relações dele com a governadora”, disse a deputada estadual Stela Farias (PT), autora de um pedido de investigação no TCE sobre um suposto favorecimento ilegal pelo banco.

O Banrisul nega irregularidades. Um dos diretores do banco, Urbano Schimitt, disse que não houve demora para ingressar com as ações ou que as suspeitas sobre o negócio entre Yeda e Laranja tenham afetado a decisão de cobrar. “Antes de ingressar com a cobrança judicial, o banco tentou uma negociação”, disse Schimitt. Por meio de assessoria, Eduardo Laranja não quis se manifestar.

Ministério Público de Contas

 O procurador do Ministério Público do TCE, Geraldo Da Camino, deve anunciar amanhã se abrirá ou não uma investigação sobre a compra da casa. No Rio Grande do Sul, uma lei dá ao TCE o poder de investigar a evolução patrimonial de todos os agentes públicos estaduais.

Na defesa prévia que entregou ao TCE, Yeda afirma que vendeu obteve R$ 592 mil com a venda de dois apartamentos e um Passat 98 para pagar R$ 550 mil de entrada na casa em dezembro de 2006. Segundo a certidão de compra do imóvel, os outros R$ 200 mil só seriam pagos após Laranja liquidar outras dívidas com o Itaú, que também também deram origem a ações de cobrança judicial.

De acordo com a defesa de Yeda, o ex-secretário de Governo Delson Martini, demitido em junho após ser citado em telefonemas de acusados da fraude do Detran, foi o comprador do Passat 98 por R$ 32 mil. Outros R$ 180 mil usados na compra da casa foram pagos pelo pai dele, Delacy Martini, pela compra do apartamento de Capão da Canoa (litoral gaúcho).

Na noite de terça-feira, a governadora fez um movimento político para unificar a sua base. O chefe da Casa Civil, José Alberto Wenzel, convidou os 55 deputados estaduais para uma reunião em que o advogado de Yeda, Paulo Olímpio Gomes de Souza, apresentaria os documentos que embasam a defesa prévia. Apenas dez deputados compareceram —nenhum deles do PMDB, o maior aliado de Yeda na Assembléia.

Fonte:Agência Folha, por Graciliano Rocha