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‘Ideologia do medo e demonização do outro semeiam o ódio entre judeus e palestinos’
04/12/2015

Elites políticas, econômicas e religiosas se mantêm no poder

Há cerca de oitos anos, o israelense-brasileiro Davi Windholz criou uma organização não governamental chamada Alternative for Peace, Dialogue and Non violence Communication(Alternativa para a Paz, o Diálogo e uma Comunicação Não Violenta) cuja tarefa central é trabalhar com crianças e jovens judeus, árabes e palestinos. Quando Windholz foi morar em Israel, aos 18 anos, ele começou a trabalhar com a problemática social do país vivendo em conjuntos habitacionais de baixa renda. Há cerca de dez anos, passou a tentar combater a cultura de ódio que marca a conflituosa relação entre israelenses, palestinos e árabes de modo geral. Decidiu começar esse trabalho a partir das crianças que ainda não estão contaminadas pelo que chama de clima de "demonização do outro”, que impera no Oriente Médio.

Davi Windholz esteve em Porto Alegre recentemente e participou de um debate intitulado "Quebrando os muros do conflito”, promovido pelo Coletivo Buber. Em entrevista aoSul21, o educador e ativista pela paz fala sobre o trabalho da ONG que criou para aproximar crianças e jovens judeus e palestinos. Além de dirigir a ONG israelense "Alternative for Peace”, que educa mais de 6 mil crianças palestinas e judias para o diálogo e a coexistência, Windholz também participa de uma nova iniciativa chamada "Dois Estados, Uma Pátria”, que propõe a construção de uma nova via para um acordo de paz entre israelenses e palestinos. Para ele, um dos principais obstáculos a serem enfrentados é a combinação da ideologia do medo com um permanente processo de demonização do outro que acaba alimentando uma cultura de ódio interminável em todo o Oriente Médio.

Sul21: Você poderia relatar como nasceu essa ideia e qual é o trabalho desenvolvido pela organização não governamental Alternative for Peace?

Davi Windholz: Eu nasci no Brasil e fui morar em Israel aos 18 anos. Já moro em Israel há 42 anos. Venho da área da educação e da psicologia social. Desde que me conheço, trabalhei com problemática social dentro de Israel e com o tema dos palestinos. Em Israel, morei entre dois e três anos numa espécie de favela, que não pode, certamente, ser comparada a uma favela brasileira. São blocos de prédios que, em grande parte, tem ar condicionado e todas as condições básicas, mas em Israel são considerados como um equivalente às favelas, pois são apartamentos pequenos com famílias numerosas, que vieram principalmente dos países árabes, com um nível educacional muito baixo e que acabam assumindo uma postura econômica de mão de obra não especializada.

"No norte da Galileia, eles vivem um ao lado do outro, mas não vivem um com o outro. Um judeu praticamente não vai visitar um árabe em sua casa e vice-versa”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Há cerca de dez anos, comecei a trabalhar a questão da relação entre israelenses e palestinos, ou judeus e árabes. Há oitos anos, eu fundei essa ONG chamadaAlternative for Peace, Dialogue and Nonviolence Communicationque realiza um trabalho educacional com crianças e jovens. No norte da Galileia temos hoje meio milhão de árabes e meio milhão de judeus vivendo um do lado do outro. Eles se cruzam o tempo inteiro em supermercados, nas ruas, no trabalho. Não existem um sistema de apartheid nesta região. Se você vai a um hospital de Naharia, encontrará médicos árabes e judeus. O hospital serve à população árabe e judia. Não há quartos individuais. No mesmo quarto, você tem quatro camas com árabes e judeus no mesmo espaço. Neste sentido, eles vivem um ao lado do outro, mas não vivem um com o outro. Um judeu praticamente não vai visitar um árabe em sua casa e vice-versa. Existe uma separação neste sentido, que é grande.

A mesma coisa acontece com o sistema escolar. Existe um sistema escolar árabe, que é ensinado em árabe para a população árabe muçulmana, drusa e cristã, e existe um sistema de educação judaico, em hebraico, para judeus.

Sul21: Esses dois sistemas não se cruzam?

Davi Windholz: Hoje em dia existem encontros entre jovens judeus e árabes, mas esses dois sistemas não se cruzam no dia-a-dia. Agora, é possível que uma criança árabe estude em uma escola judia, mas ela vai estudar segundo o programa judaico, que é em hebraico. Vai estudar a Torá, que é o Antigo Testamento, não vai estudar o Corão, não vai estudar a história do povo palestino, do mundo árabe e assim por diante. A mesma coisa ocorre se um judeu quiser estudar numa escola árabe. Ele vai estudar o Corão ou o Novo Testamento, em árabe e não em hebraico. Neste sentido, há uma liberdade de cada um estudar onde quer. Inclusive, dentro do sistema judeu, há uma corrente laica e uma religiosa, que também são separadas. Então, essas populações acabam criando um sectarismo onde eu não conheço você e você não me conhece. Apesar de nós dois termos toda a liberdade de movimento neste espaço, a gente praticamente não se fala e não se conhece.

"Realizamos colônias de férias três vezes ao ano, onde crianças muçulmanas, judias, drusas e cristãs se encontram e fazem um trabalho juntas”.

Sul21: Esses sistemas de educação são públicos?

Davi Windholz: Em Israel, não existe escola particular. As únicas redes de escolas particulares que existem são ligadas à igreja cristã e à Igreja Ortodoxa Russa, mas elas também recebem apoio do governo. Todo o sistema educacional em Israel é público.

Sul21: Como funciona, na prática, o trabalho da ONG?

Davi: Nós criamos essa ONG para fazer essa relação entre as correntes árabes e judias. Realizamos colônias de férias três vezes ao ano, onde crianças muçulmanas, judias, drusas e cristãs se encontram e fazem um trabalho juntas. É uma atividade bilíngue. Fala-se árabe e hebraico, portanto. Os monitores falam as duas línguas e eles vão traduzindo para as crianças dentro deste processo educativo. Ao mesmo tempo em que a gente fortalece a identidade religiosa e nacional de cada um, trabalhamos no nível humano. Se você pega a literatura utilizada nas escolas palestinas e a literatura usada nas escolas judias, verá que um lado trabalha para demonizar o outro. Nossa ideia é desdemonizar, humanizar e fazer com que a criança veja que, quem está na frente dela é outro ser humano e, assim, possa perder o medo e despertar uma capacidade de diálogo.

Os pais que colocam as crianças neste sistema, obviamente, têm um determinado compromisso com essa visão de mundo. Estamos em processo de ampliação desse trabalho que, até então, ocorria apenas em Israel. Fizemos a primeira colônia de férias na Palestina. Eu chamo de Palestina a Cisjordânia e Gaza. Não chamo mais de territórios ocupados. Na Cisjordânia, há um grupo de dois ou três mil colonos judeus religiosos que, hoje em dia, são a favor de um diálogo com os palestinos e são a favor do Estado palestino. Eles se uniram com um grupo de também dois ou três mil palestinos, que também são a favor de um diálogo, e conseguimos fazer uma colônia de férias pequena, com cerca de 60 crianças, que é um início de diálogo entre os dois lados que mais se chocam.

Além disso, a ONG apoia trabalhos relacionados [ao combate] à violência contra a mulher, tem um trabalho cooperativo com os grupos de direitos humanos e um compromisso com a criação do Estado Palestino, ao lado do Estado de Israel.

Sul21: Quais os obstáculos e resistências que esse trabalho de reunir crianças e jovens judeus e palestinos enfrentou e segue enfrentando?

Davi Windholz: Logicamente, esse trabalho encontra resistências. Por isso, começamos com crianças. Quando você trabalha com jovens, já existe um estereótipo formado que vai criar um obstáculo no diálogo. Nós fazemos seminários justamente para isso, para romper com esses estereótipos. Justamente hoje eu estava trabalhando com estudantes do Colégio Israelita, mostrando para eles como funciona esse processo. São atividades que reúnem dinâmica de grupo, teatro, música e outras formas de expressão artística. A palavra tem uma força muito grande na construção do estereótipo. Quando eu me comunico verbalmente, isso é totalmente diferente de se eu comunicar por meio do teatro ou de outras formas artísticas. Por meio disso, a gente consegue romper esses estereótipos.

"A tradicional proposta de dois estados, defendida pela esquerda, é de dois estados divorciados; é vocês lá e nós aqui”. 

A ideia é deixar eles lá como cidadãos israelenses residentes palestinos. Eles votam para o parlamento de Israel. Ao mesmo tempo, neste acordo de paz, haveria uma entrada de refugiados palestinos em Israel, numa proporção análoga a dos israelenses assentados na Palestina. Seriam cidadãos palestinos residentes em Israel. Isso tudo com livre passagem de Israel para a Palestina. Esses dois estados viveriam numa espécie de confederação ou de mercado palestino-israelense livre, como a Europa, com quatro pastas superiores.

A primeira seria a própria governança, que estabeleceria que tipos de governo existirão nestes dois estados. A ideia é que sejam democracias. A segunda seria de segurança, definindo como os dois exércitos vão trabalhar juntos para garantir a paz entre os dois estados. A terceira trataria da questão econômica. O PIB de Israel é muito superior ao palestino. Há praticamente um abismo entre os dois. Seria preciso criar uma espécie de Plano Marshall que criaria toda uma infraestrutura na Palestina para criar uma economia independente. A quarta cuidaria da infraestrutura, principalmente do problema da água, que hoje é menos crítico do que era há dez anos. Hoje, de 60 a 70% da água em Israel é dessanilizada, enquanto a água palestina ainda é fundamentalmente aquela que vem do rio Jordão e do lago de Tiberias. Hoje em dia, Israel também controla essa água.

Sul21: Quem defende essa proposta hoje em Israel e na Palestina. Há forças políticas mais tradicionais que apoiam essa ideia?

Davi Windholz: Por enquanto, não. Essa ideia surgiu há cerca de um ano e está começando a ser divulgada, em um trabalho de formiguinha. Estão ocorrendo pequenas reuniões em casas de pessoas que vão sendo ampliadas, tanto em Israel como na Palestina. Segundo levantamentos já feitos, acredita-se que em torno de 60% do povo de Israel e da Palestina aceitariam essa proposta, se alguma liderança forte estivesse no governo e anunciasse essa proposta como um programa de paz. O problema é quem são os outros 40%. O perigo é se, dentro dessa parcela, se formarem grupos extremistas fundamentalistas, tanto de um lado como de outro, e eles tentarem boicotar o processo de paz. Isso não é algo para agora. Temos claro que essa proposta é impossível no curto prazo, mas precisamos começar a trabalhar para daqui a 5 ou 10 anos, quem sabe, obter um resultado concreto. E gostaria de esclarecer que esse projeto não é da ong que eu criei, mas sim algo muito mais amplo. Eu me integrei a esse projeto porque achei muito parecido com a minha proposta educacional.

Sul21: Considerando esse período de existência e atuação da ong que trabalha pela aproximação entre judeus, árabes e palestinos, como você definiria o estágio atual dessa relação: melhorou, piorou ou segue igual?

Davi Windholz: A relação entre israelenses, árabes e palestinos, em geral, é positiva. A extrema-direita israelense está tentando arrebentar de vez essa relação, que é muito delicada. Os palestinos residentes em Israel têm duas posturas. Eles são totalmente a favor do Estado palestino, mas nenhum deles vai morar na Palestina. Eles querem morar em Israel e se integrar à sociedade israelense. Faço um paralelo com a situação de judeus brasileiros que têm uma identificação muito grande com o Estado de Israel, mas querem morar no Brasil. Essa questão de dupla identidade, que muitas vezes é um termo pejorativo, é uma realidade de muitas pessoas em vários países do mundo.

Sul21: Quantos são, aproximadamente, os palestinos vivendo em Israel hoje?

Davi Windholz: Os árabes-israelenses são em torno de um milhão e trezentos. Dentro dessa parcela, há os árabes-palestinos, mas também os drusos, que têm uma religião separada do islamismo e não se consideram palestinos. Os drusos fazem o Exército. Há alguns palestinos cristãos que também estão se apresentando como voluntários para fazer o Exército em Israel. A situação do palestino israelense é muito conflituante do ponto de vista da identidade pessoal, mas eles se identificam totalmente com o Estado palestino. Existe racismo dentro de Israel, impulsionado por determinados grupos de direita. A maior parte da população não é racista, mas há uma tensão muito grande no momento em Israel. As pessoas andam olhando para trás para ver se não tem nenhum jovem de 15 ou 16 anos com uma faca na mão.

"A ideia é seguir trabalhando de baixo para cima e começar a divulgar esse projeto até se criar um contexto que propicie o diálogo”.

Juntamente com esse processo construído de baixo para cima, em Israel e na Palestina está surgindo um novo movimento chamado "Two states, one homeland” (Dois estados, uma pátria), que é uma nova visão para um processo de paz. As duas coisas andam juntas. A ideia é seguir trabalhando de baixo para cima e começar a divulgar esse projeto até se criar um contexto que propicie o diálogo. Hoje, com o atual governo de Israel e a relação do Hamas com a Autoridade Palestina, o diálogo está se tornando impossível. O que estamos fazendo é, ao invés de ficar em casa esperando, começar a agir para criar um movimento capaz de criar uma massa crítica que, em algum momento, transforme dos dois lados essa situação.

Sul21: Em que essa ideia de dois estados, uma pátria se difere da proposta tradicional de dois estados? É a mesma proposta ou não?

Davi Windholz: Não, é uma proposta diferente. A esquerda israelense quebrou com o assassinato de Rabin e foi enterrada com a segunda intifada. Há alguns meses, Mahmoud Abbas declarou em uma entrevista que a segunda intifada foi o segundo maior erro dos palestinos, que acabou enterrando qualquer possibilidade de acordo de paz. Israel cortou toda a entrada de palestinos, criando um problema de desemprego muito grande dentro da Palestina. A Palestina não tem emprego para todos os seus trabalhadores e Israel era uma fonte de trabalho. Com a subida da extrema-direita ao poder em Israel e a coalizão de Abbas com o Hamas se criou um ambiente de total falta de diálogo, que é o que temos hoje.

A tradicional proposta de dois estados, defendida pela esquerda, é de dois estados divorciados; é vocês lá e nós aqui. É o que eu chamo de dois estados tolerantes. Eu te tolero e você me tolera. Já que um não pode destruir o outro vamos se tolerar um ao outro. Eu venho também da área de terapia de casal e compara essa situação com a de um casamento em crise. Se um casal que se separa não faz uma terapia de separação, no futuro o conflito vai surgir de novo, ou diretamente ou através dos filhos. Temos algo similar na relação entre israelenses e palestinos. Se não houver uma terapia de reumanização dos dois lados, o conflito vai continuar existindo.

A ideia de dois estados e uma pátria é criar dois estados nas fronteiras de 1967, com Jerusalém capital da Palestina e de Israel. A cidade velha de Jerusalém, que é o principal foco de conflitos, em torno do Muro das Lamentações, da Igreja do Santo Sepulcro e da Mesquita de Al Aqsa, seria internacionalizada de acordo com esse plano. O principal, porém, é o seguinte: hoje, na Palestina, há cerca de 500 mil colonos judeus religiosos que, de forma ilegal, se assentaram naquele território. Pela lei internacional, se um país conquista território, ele pode fazer assentamentos militares, mas não pode fazer assentamentos civis. Israel fez assentamentos civis. Portanto, eles estão assentados ilegalmente, num processo que já tem 50 anos. O problema é que é impossível tirar eles de lá hoje. Não tem como. A ideia é que esses judeus não sejam retirados do território da Palestina. Eu sempre fui de esquerda e sempre defendi a sua retirada por entender que são o maior obstáculo à paz. No último ano, quando me integrei a esse movimento, comecei a mudar a minha visão sobre o tema.

 Sul21: Esse é um fenômeno mais recente, não?

Davi Windholz: São ataques individualizados. Essa intifada se difere da anterior que era muito organizada, com células organizadas para praticar ataques em Israel. Após a construção do muro, ficou muito difícil para essas células penetrarem em Israel pois elas, em geral, vinham da Cisjordânia. Um dado importante a se considerar é que houve uma decadência muito grande na parte oriental de Jerusalém, que está sob o comando de Israel. Houve um desleixo por parte da municipalidade de Jerusalém e do governo de Israel em relação à população palestina. Ao contrário da Galileia, onde judeus e palestinos vivem um do lado do outro, em Jerusalém há uma divisão. Há a parte ocidental judia e a parte oriental palestina que fazia parte da Cisjordânia, mas foi anexada a Israel. Isso causou uma série de problemas. Por um lado, eles foram anexados a Israel, que passou a ser responsável por essa população. Por outro, eles não são cidadãos israelenses, só são considerados residentes e só tem acesso a serviços de baixo nível. Isso criou uma frustração muito grande e uma falta de esperança em relação a um acordo de paz, alimentando um sentimento de revolta.

Se você cria uma situação de pobreza, de desemprego, de falta de esperança, está criando também o adubo que vai fazer florescer a árvore de ódio. Foi o que o governo atual de Israel fez, pelas circunstâncias que criou na parte de Jerusalém oriental. Ele criou o adubo e lançou-o na terra. O que os palestinos querem? A maioria quer exatamente a mesma coisa que os israelenses querem: um trabalho, saber que volta para casa com um salário e que vai encontrar sua família em segurança, ter condições de dar um futuro para os seus filhos e viver a vida em paz. Os dois lados querem isso. Mas existem lideranças dos dois lados que fomentam o que chamo de ideologia do medo, que é o que os mantém no poder. A ideologia do medo e a demonização do outro fomentam esse ódio e fazem com que essas elites políticas, econômicas e religiosas se mantenham no poder.

Sul21: Como está a situação política dentro de Israel hoje? Há uma direitização crescente no comando político do país. Essa direitização também se expressa na sociedade?

Davi Windholz: Temos um paradoxo aí. Por um lado, a gente fala que o comando político está indo para a direita. Por outro, quando olhamos para o Parlamento, a centro-direita e a extrema-direita tem 61 cadeiras, contra 59 da oposição. Os ministros da extrema-direita, que estão nas pastas da Justiça e da Cultura, estão tentando impor leis muito perigosas, não só para os árabes, mas para os próprios judeus. A ministra da Cultura, Miri Regev, já disse que não vai apoiar nenhuma obra de arte que seja contra o Estado de Israel. Quem é que vai definir o que significa "ser contra o Estado de Israel”? Segundo a ministra, quem for contra a narrativa que ela defende não receberá recursos para produzir um filme, uma peça de teatro ou qualquer outra manifestação artística. Ela também já se manifestou contra as organizações não governamentais que trabalham com grupos pacifistas. Eu não acredito que ela vai conseguir seu objetivo. Israel tem uma base democrática muito forte e o Tribunal da Justiça não deixará isso passar. Se passar, qualquer cidadão pode ingressar com um pedido no tribunal superior solicitando uma ordem de interferência. O tribunal pode dizer que essa lei vai contra as leis básicas do país. Esse tribunal ainda é independente e muito forte. Estão tentando mudar a sua atual composição justamente por isso.

Recentemente, estive dialogando com representantes da direita, a propósito da intifada das facas, e sugeri a eles: por que vocês não fazem aqui que vocês defendem? Anexem a Cisjordânia, usem a força e solucionem o problema, como vocês preconizam. Vocês estão no governo e têm maioria no Parlamento. Façam uma lei anexando a Cisjordânia, acabem com todos os movimentos terroristas como vocês propõem e os problemas estarão solucionados. É a oportunidade de vocês fazerem isso. Acabem com eles…

Sul21: Qual foi a resposta a essa sugestão?

Davi Windholz: A resposta é…fica entre nós, sabemos que essa não é a solução, mas temos que falar isso pois assim permanecemos no poder. Eles sabem que se fizerem isso, caem interna e externamente. A pressão mundial vai ser tão grande que não vão resistir. Eles sabem que não existe essa possibilidade. O que interessa a eles é a continuidade do status quo. Só que essa continuidade vai acabar criando um Estado bi-nacional e terminando com o Estado de Israel pela questão demográfica. Abbas já ameaçou devolver a Autoridade Palestina para Israel. Ele não fará isso pois sabe que geraria uma situação caótica, mas se fizesse criaria um grande problema para Israel, que teria que absorver orçamentariamente a Cisjordânia e garantir o funcionamento de todos os serviços públicos. A economia de Israel não teria como aguentar isso.

A única forma de resolver esse problema é fortalecer as forças moderadas dos dois lados. Aí entra uma última questão que eu gostaria de comentar que é o movimento BDS. Trata-se de um movimento legítimo de boicote, mas creio que é totalmente anti-produtivo, pois é ineficaz economicamente e acaba fortalecendo as forças de extrema-direita dentro de Israel. O governo de extrema-direita usa isso para dizer: olhem, o mundo está contra nós. Precisamos nos unir contra o mundo antissemita que nos ameaça. Estou tentando dialogar com eles, que sabem que sou uma pessoa de esquerda. Mas ainda não conseguimos estabelecer um diálogo.

 

Fonte: Marco Weissheimer/Sul21 – 30-11-2015